O Estado de Jogo

Essa foi uma descoberta muito importante que o ambiente do teatro me proporcionou: o jogo, como propiciador do auto-conhecimento. O espaço do jogo tinha um fim em si mesmo. Não jogávamos para montar cenas, ou construir personagens. Jogávamos para explorar novos territórios.

É bonita essa definição do Huizinga: “O jogo é uma atividade ou ocupação voluntária, exercida dentro de certos e determinados limites de tempo e de espaço, segundo regras livremente consentidas, mas absolutamente obrigatórias, dotado de um fim em si mesmo, acompanhado de um sentimento de tensão e de alegria e de uma consciência de ser diferente da ‘vida cotidiana’.”

Eu tenho usado a ferramenta dos jogos teatrais como catalizador de descobertas pessoais. O jogo e o conflito. Normalmente eu elejo um tema a ser trabalhado e escolho alguns jogos que nos permitam explorar nossas tensões, resistências, dificuldades de mobilidade. Então o jogo em si e o conflito do ator-sujeito com o jogo e seus limites.

Nesses anos de jogador e condutor de jogos, fui aprendendo que é imprescindível criar esse ambiente permissivo, onde o jogador pode tudo, segundo as regras do jogo. Essa é a condição mais importante de todas. Existem essas situações em que o jogador se violenta, se obriga a vencer certas situações, se impõe seriedade excessiva no jogo. Nesses casos, eu fui aprendendo que é preciso ajudar o sujeito a voltar ao prazer do jogo em si. Excesso de tensão normalmente indica que o sujeito tem uma agenda oculta, e espreita resultados e objetivos alheios ao jogo.

Essa é a lição eterna que eu sempre aprendo com o Janô (Antonio Januzelli). Quando eu o conheci, eu era ator a pouco tempo. Minha formação anterior era a de Técnico em Eletrônica, pela Fundação Bradesco e antes ainda, num colégio católico de Osasco, o Instituto São Pio X. Eram ambientes muito rígidos e formais. Eu aprendi a ser um sujeito metódico, disciplinado e estudioso.

Minhas primeiras aulas de Improvisação Teatral com ele eram um inferno. Ele chegava, se sentava e não falava nada. Então começava a babar um cuspe estranho. A gente ria e ele continuava sem dizer nada. Só lidando com aquele cuspe. A gente ia se cansando do cuspe e se deitava, rolava, começava a se mover. Depois de um tempo, as pessoas estavam fazendo as coisas mais loucas do mundo e eu, excessivamente crítico e metódico, ficava testando o ambiente para ver se eu realmente poderia fazer qualquer coisa que eu quisesse. E podia.

O limite era a minha coragem de explorar certos limites de me expor. Por ele (Janô), eu poderia fazer o que bem entendesse. A única regra, que ele repetia constantemente era “Corpo-porcelana”. E aquelas perguntas, escritas em letras garrafais nos seus infinitos cadernos: “Qual o caminho que leva o homem ao ator”. Que diabo! Pergunta pro resto da vida! Com mil sentidos, que vão de como o ator faz para que o homem chegue ao teatro ou de que espécie de homem é o ator ou ainda, de como fazer o teatro chegar ao homem através do ator ou se existe uma trilha que tire o homem de um estado cotidiano e o leve a algo extra cotidiano, que seria a condição do ator…

E o que ele fazia em aula? Como fazia o que fazia?

Eu, e inúmeros colegas levamos essa questão a ele diversas vezes e a resposta é impossível. Janô é a resposta. Ele é o método e o que ele faz é deixar que você seja.

Eu só pude entrar nisso muito mais tarde.

Não como o ator, que muitas vezes jogava buscando construir uma partitura para um personagem que resolvesse uma cena de espetáculo. Não. Mas como o massagista, atento ao cliente e seus limites. Atento à dor do outro e buscando construir com ele esse espaço-laboratório onde ele possa ser quem é. Que não esteja chantageado pelas minhas expectativas em relação a ele. Para que ele possa se resolver com a sua dor e o personagem que ele não deseja mais para si.

Então fui percebendo no meu processo que jogar era uma boa maneira de lidar com aquelas características minhas que já não fazem sentido. O jogo me ajuda a diagnosticar minha inércia, minha rigidez, minha frivolidade. Jogando eu observo meus desvios e jogando eu aprendo a corrigi-los.

Muitas vezes, nos processos de auto-conhecimento, somos rígidos demais com nós mesmos. E esse excesso de rigidez adiciona uma camada ainda de tensão, que não serve para nada. Então é preciso essa coragem de ir fundo nas suas dores e ser capaz de brincar com isso tudo. Como o Louco, no início do caminho do Tarot. O Louco, errando no precipício é uma lição de como temos que lidar com nossos abismos. Com a coragem de sermos inocentes.

 

Por Djair Guilherme