Ato e Corpo

Em algum ponto da trajetória acontece esse desvio: deveríamos ser amados tal qual somos, mas algo nos atravessa e desde então passamos a obedecer uma chantagem para nos sentirmos amados. E então, nos perdemos.

Esse ato de traição consigo mesmo vai configurando uma sequência de outros atos, todos eles intensificando essa contradição interna, entre aquilo que se era na origem e a deformação sofrida, que passa a ser nosso acordo de vida. Um método para resolver a vida, mas um método que parte de uma deformação.

Aquilo que se diz e não se sente. As ações imaginadas, os sonhos sempre adiados. Cada coisa dessas é começada no corpo, num alento, num coração que pulsa mais rápido, numa boca que se prepara para dizer como se sente, mas que se entrega ao silêncio. Corpo e ato estão sempre unidos. Mas se o ato não acontece ele fica lá, no corpo, guardado. Como proposta. Como reserva. E então, nas infinitas associações da mente, nos esquecemos dele.

Como resultado, perdemos a capacidade de nos maravilhar. Perdemos a capacidade de ver algo novo. Olhamos para a sucessão dos fatos e passamos a significar sempre a mesma ação não resolvida, a ação que não encontrou seu termo. Não temos mais a consciência desses atos, mas eles seguem atuando, buscando resposta no mundo.

Mudamos de emprego, de cidade, de casamento assumimos novos riscos e depois de algum tempo, lá estamos nós lidando com pessoas que são incrivelmente parecidas com outras pessoas com as quais nos encontramos antes. Repetimos, com essas novas pessoas, cenas que já vivemos com pessoas diferentes. O inferno é sempre culpar o outro por isso. O inferno é não ter a percepção de que é você mesmo quem gera nessas pessoas as mesmas ações de que necessita para continuar seguindo o mesmo programa.

E o programa é esse desvio. A chantagem do começo.

Há uma forma de sair desse programa, de ter a capacidade de recusar essa chantagem e o sequestro de si mesmo.

Não é um caminho em que se adicionam mais elementos, um outro caminho de excessos.

É antes, um caminho de purificação, de ajudar o outro a tirar do corpo esses atos.

E realizá-los.

por Djair Guilherme

 

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