eu poderia estar opinando mas estou escrevendo

Não sou de ficar citando Raulzito, mas para a sociedade da informação não ter uma opinião formada sobre tudo é sinal de alienação, ficar “em cima do muro”, não ser pró-ativo e muitas outras coisas até necessárias, mas que justamente quando são vertidas em uma “opinião” acabam fechando o processo humano num bando. Em tempos de agitação política, de total descontrole, isso fica ainda mais forte. Quer saber como isso te afeta? Olhe sua timeline em redes sociais. Não participa de nenhuma? Uau! Você é praticamente um fora-da-lei, mas pode saber que não é herói. Bom, essa é só mais uma opinião, você pode estar pensando. Então vou chamar pra essa conversa Jorge Larossa Bondía, professor de filosofia da Educação na Universidade de Barcelona. No seu delicioso ensaio “Notas sobre a experiência e o saber de experiência” (na íntegra: http://www.scielo.br/pdf/rbedu/n19/n19a02.pdf), o autor dá um passeio sobre os múltiplos significados da palavra “experiência” (em síntese, algo que nos atravessa, e para que isso ocorra devemos ser permeáveis a ela) e de diversos fatores que nos afastam do seu conceito: Entre eles, reinam duas colunas fundadoras do nosso universo pensante contemporâneo: a informação e a opinião. Nas suas palavras: “E quando a informação e a opinião se sacralizam, quando ocupam todo o espaço do acontecer, então o sujeito individual não é outra coisa que o suporte informado da opinião individual, e o sujeito coletivo, esse que teria de fazer a história segundo os velhos marxistas, não é outra coisa que o suporte informado da opinião pública. Quer dizer, um sujeito fabricado e manipulado pelos aparatos da informação e da opinião, um...

para te comer melhor

A sensação é de plenitude. Euforia. Um novo texto que se inicia, enquanto nos deliciamos com o sabor da própria imaginação. Cheios de entusiasmo, com um frágil fio pendendo entre os dedos, uma primeira intuição de que história estamos contando, adentramos no labirinto. Mas eis que, sem convite prévio, (será?) ela surge: a figura inimiga. Nossas forças diminuem. A sensação de confusão aumenta. Não se sabe mais pra onde ir, tudo o que parecia bom começa a ser corroído. A vida pesa. A sensação de responsabilidade. Os cálculos. O tempo que não temos. O que aconteceu? Não estava tudo indo tão bem? Pois bem, adentramos na floresta do imaginário, e a imaginação é algo vivo. É claro que sim, você deve estar pensando. Mas eu falo de algo tão vivo quanto o que vive fora. Passível de alegria, dor, vida e morte. E perigo. Um lugar não tão seguro como gostaríamos de acreditar ao acordarmos de um pesadelo. Na palavras de Alan Moore, numa entrevista concedida para a revista Pagan Dawn, percebemos o quanto escritor, que também se dizia um mago, levava a sério as consequências de determinados percursos: “Aborde o seu trabalho com tanta reverência, compaixão, inteligência e precaução quanto você teria ao encontrar com um suposto anjo, deus ou demônio (…) e se você duvida disso, considere todos os artistas, poetas e atores que se suicidaram ou arruinaram suas vidas – aposto que a lista não será curta.”. O simples percorrer das narrativas internas gera na realidade externa uma nova organização, orientando o olhar de acordo a essa paisagem explorada. E então acontece algo realmente mágico: o...

a catástrofe do sucesso (by Tennessee Williams)

On A Streetcar Named Success by Tennessee Williams Tennessee Williams (Publicado pela primeira vez no New York Times — Drama Section, 30 de novembro de 1947, quatro dias antes da estreia de A Streetcar Named Desire — e mais tarde reproduzido na revista Story.) Este inverno assinalou o terceiro aniversário da estréia, em Chicago, de A Margem da Vida, um evento que pôs término a uma parte de minha vida e começou outra tão diferente da precedente em todas as circunstâncias externas quanto será fácil imaginar. Fui arrancado de meu quase anonimato e atirado aos píncaros de uma fama repentina e, do precário aluguel de quartos mobiliados em várias regiões do país, fui trasladado para um apartamento de um hotel de primeira classe em Manhattam. Minha experiência não foi única, pois o sucesso muitas vezes já irrompeu, da mesma forma abrupta, na vida de muitos americanos. A história de Cinderela é nosso mito nacional favorito, a pedra fundamental da indústria cinematográfica, senão da própria Democracia. Eu já a vira representada na tela tantas vezes que estava agora inclinado a recebê-la com um bocejo de enfado, não com descrença, mas com a atitude de quem desse de ombros, exclamando: “Que bem me importa!” Qualquer pessoa dotada de dentes e cabelos tão lindos, como a protagonista cinematográfica de tal história, tinha, por força, que se divertir a valer, fosse como fosse. Você podia apostar seu último dólar e todo o chá da China em que aquela estrela nunca seria vista, viva ou morta, em qualquer tipo de reunião que exigisse um mínimo de consciência social. Não, minha experiência não era excepcional,...
A velha

A velha

Então eu vejo essa menininha entrando nesse jardim abandonado. O mato cresce solto, sem nenhum cuidado, por toda a parte. Não entendi bem de onde a menina veio. Parece que chegou aqui por acaso. Talvez esteja perdida. Ao mesmo tempo que eu, a menina vê a velha sentada no banco. A velha tricota infindavelmente uma manta que se arrasta pelo chão. Não consigo explicar essa sensação de perigo que sinto ao ver a menina se aproximando da velha para pedir, talvez, informações sobre como sair daqui. “Bom dia, eu estou procurando a saída desse lugar.” “Talvez seja uma boa idéia você voltar por onde veio.” – responde a velha, usando a lógica com a qual tricota. “Não sei por onde vim. Quando me dei conta, já estava aqui.” “Hmmm.”- resmunga a velha, como se estivesse diante de um problema de difícil resolução. “Desculpe. Eu não me apresentei antes. Meu nome é Carolina. Eu cheguei até aqui, não sei como e agora gostaria de sair. Estou preocupada com os meus pais.” “Carolina?”- a velha então ri. “Sim, Carolina. Por que a senhora riu?” “Porque você disse que seu nome é Carolina.” “Sim. A senhora conhece alguém com esse nome?” “Seu nome não é Carolina.” “É sim!”- responde a menina sem entender direito onde a velha pretende chegar com a conversa. “Entendi. Eles disseram a você que seu nome é Carolina.” “Todo mundo me chama de Carolina.” “Mas o seu nome verdadeiro é Nádia.” “Como?” “Nádia.” “Não. Nunca.” “Esse casal, que você chama de pais, eles não são seus pais de verdade. Eu conheci sua família, muito tempo atrás…”- foi aqui que...

As histórias: o poder daquilo que nos habita

Acordo. Antes de abrir os olhos, meu primeiro contato com o mundo é: uma imagem. Pode ser um resquício do sonho recém-terminado, pode ser o início dos fragmentos do dia. Antes ainda de deixar a luz entrar, as imagens já existem. Depois, despertos, seguimos vendo a vida filtrados por essa realidade interior. Nas pessoas que conheço e conhecerei, nos conflitos do dia a dia, nas emoções vivenciadas, tudo isso possui correspondentes internos. São mundos em plena conexão e em mútua influência, um retroalimentando o outro. Não, não é só imaginação. As paisagens e personagens que carregamos são constantemente projetadas no que aprendemos a chamar de realidade. E por mais que não acreditemos nisso, por mais que nem possamos ouvir nossos sonhos ou devaneios, que nunca se sentiu capturado, abduzido, raptado por uma história, seja ela posta em livro, em filme, em peça, ou até narrada em páginas de jornais? Quem nunca foi arrebatado por uma imagem, uma cena, ou até uma música (que é, também, uma forma de narrativa?) As histórias são parte de nós. São os rios que fluem no nosso sangue, pedindo essa livre passagem de paisagens, personagens, argumentos. E cada vez que nosso sistema de crenças “proíbe” um contato, isolando-o em uma ilha represada, o que acontece? Sonhos repetidos, conteúdos que não se resolvem, histórias da vida que revivemos e ressentimos, mesmo que aparentemente tenham novos cenários e protagonistas. Como libertar, novamente, esse rio que flui do passado das memórias ao que imaginamos do futuro? Como nos jogar nesse rio sem o terror de sermos dissolvidos em tantas vozes, figuras, paisagens lindas ou aterrorizantes? O que,...

Imagem e espaço de representação

Distinções entre sensação, percepção e imagem Provisoriamente, entendemos a sensação como o registro que se obtém ao detectar um estímulo proveniente do meio externo ou interno e que faz variar o tom de trabalho do sentido afetado. Mas, o estudo da sensação deve ir mais longe quando comprovamos que há sensações que acompanham os atos do pensar, do recordar, do perceber, etc. Em todos os casos, se produz uma variação do tom de trabalho de algum sentido, ou de um conjunto de sentidos (como ocorre na sinestesia), mas é claro que não se “sente” do pensar na mesma forma e modo que se “sente” de um objeto externo. E, então, a sensação aparece como uma estruturação que efetua a consciência em seu afazer sintético, mas que é analisada arbitrariamente para descrever sua fonte originária, para descrever o sentido do qual parte seu impulso. De nossa parte, entenderemos a percepção como uma estruturação de sensações efetuadas pela consciência referindo-se a um sentido ou a vários sentidos. E no que tange à imagem, a entendemos como uma representação estruturada e formalizada das sensações ou percepções que provêm ou provieram do meio externo ou interno. A imagem, pois, não é “cópia”, mas síntese, intenção e, portanto, também não  é mera passividade da consciência.   O registro interno de acontecer a imagem em algum “lugar” Este teclado que tenho ante meus olhos, no acionar de cada tecla vai imprimindo um caráter gráfico que visualizo no monitor ligado a ele. Associo o movimento de meus dedos a cada letra e automaticamente as frases e sentenças decorrem, seguindo meu pensamento. Fecho os olhos e deixo...