As histórias: o poder daquilo que nos habita

Anna Tatarynowicz9

Acordo. Antes de abrir os olhos, meu primeiro contato com o mundo é: uma imagem. Pode ser um resquício do sonho recém-terminado, pode ser o início dos fragmentos do dia. Antes ainda de deixar a luz entrar, as imagens já existem.

Depois, despertos, seguimos vendo a vida filtrados por essa realidade interior. Nas pessoas que conheço e conhecerei, nos conflitos do dia a dia, nas emoções vivenciadas, tudo isso possui correspondentes internos. São mundos em plena conexão e em mútua influência, um retroalimentando o outro.

Não, não é só imaginação. As paisagens e personagens que carregamos são constantemente projetadas no que aprendemos a chamar de realidade. E por mais que não acreditemos nisso, por mais que nem possamos ouvir nossos sonhos ou devaneios, que nunca se sentiu capturado, abduzido, raptado por uma história, seja ela posta em livro, em filme, em peça, ou até narrada em páginas de jornais? Quem nunca foi arrebatado por uma imagem, uma cena, ou até uma música (que é, também, uma forma de narrativa?)

As histórias são parte de nós. São os rios que fluem no nosso sangue, pedindo essa livre passagem de paisagens, personagens, argumentos. E cada vez que nosso sistema de crenças “proíbe” um contato, isolando-o em uma ilha represada, o que acontece? Sonhos repetidos, conteúdos que não se resolvem, histórias da vida que revivemos e ressentimos, mesmo que aparentemente tenham novos cenários e protagonistas.

Como libertar, novamente, esse rio que flui do passado das memórias ao que imaginamos do futuro? Como nos jogar nesse rio sem o terror de sermos dissolvidos em tantas vozes, figuras, paisagens lindas ou aterrorizantes?

O que, em mim, precisa ser libertado?

Que histórias conto, repetidamente, sobre minha pessoa? O que priorizo em minha biografia? O que aprendi chamar de eu não seria somente mais uma das inúmeras possibilidades?

Que histórias pedem passagem?

Que histórias agem como barreiras, impedindo que o vento entre novamente na nossa vida, nos dando a sensação de caminhar para trás, por mais que aparentemtente estejamos galgando os sucessos esperados?

Na escuta dessas imagens, achamos as respostas. No contato íntimo e corajoso com esses conteúdos que pedem passagem, achamos novamente o fluir de quem verdadeiramente somos.

O estudo das histórias, dos mitos, das diversas estruturas possíveis, o manejo do tempo e do espaço, a compreensão (e a aceitação) de quaisquer personagens que possam surgir, tudo isso são nossas ferramentas. Nossos continentes para que possamos lançar pontes a esses mundos isolados em ilhas.

Ao conectar nossos infinitos mundos, deixamos de ser fragmento.

Nessa unidade da diversidade que somos, nossa verdadeira história se mostra.

É essa a nossa pesquisa.

(ilustração de Ana Tatarinowicz)

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