O personagem como uma medicina para o ator

Coisa difícil de definir é o ator e sua arte.

Existem palavras que expressam bem a relação do ator com o texto. Interpretar é uma delas. Existem outras que pontuam a relação do ator com a idéia por trás da sua ação. Representar é uma palavra assim. Outras ainda colocam o ator como o sujeito da ação e a própria palavra “ator” indica que acima de tudo o sujeito age e a ação o define. Atuar, vem de ator. Ou ator vem de atuar.

É desse mundo ideal que o ator interpreta com o seu mergulho e tenta representar usando o seu corpo, a sua fala, a sua ação, sua atuação, nasce essa arte do ator.

Um jeito do ator fazer a sua arte é tornar o texto uma pessoa. Outro é tornar a idéia em corpo ou a emoção em ação.

Por onde vamos se quisermos fazer isso? Qual o jeito?

Januzelli diz assim: “O ator é aquele que busca abandonar-se de si para tornar-se outro.” E nos deixa com essa frase e mais as perguntas que ela suscita: Como é esse abandono? É possível? É uma espécie de morte? O ator precisa ser permeável ao outro? Que outro? Uma outra possibilidade dele mesmo ou realmente alguém outro? O que define “esse” e o que define “aquele”? O ator é esse que caminha para ser aquele? Que caminho leva o homem ao ator?

Com tantas perguntas, eu mesmo fico pensando que a arte do ator é um trajeto dele até ele mesmo. No caminho ele vai encontrando outros e ao se confrontar com eles, vai descobrindo a que veio. O ator vai achando sua própria época ao viver outras. Vai encontrando outros caminhos do seu viver, vivendo a vida que ele acredita ser a de outros.

Esse encontro com a alteridade é um confronto. Polaridades. Eu e o outro. E essa diferença. Às vezes isso se expressa de forma colérica. Em outras, de forma misericordiosa. De qualquer modo, o ator sabe que para chegar à verdade do outro, vai ter que aceitá-lo profundamente, como se fosse ele mesmo. E nesse caminho de aceitação do outro, o ator vai ganhando sua humanidade.

por Djair Guilherme

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