A velha

A velha

Então eu vejo essa menininha entrando nesse jardim abandonado. O mato cresce solto, sem nenhum cuidado, por toda a parte. Não entendi bem de onde a menina veio. Parece que chegou aqui por acaso. Talvez esteja perdida. Ao mesmo tempo que eu, a menina vê a velha sentada no banco. A velha tricota infindavelmente uma manta que se arrasta pelo chão. Não consigo explicar essa sensação de perigo que sinto ao ver a menina se aproximando da velha para pedir, talvez, informações sobre como sair daqui. “Bom dia, eu estou procurando a saída desse lugar.” “Talvez seja uma boa idéia você voltar por onde veio.” – responde a velha, usando a lógica com a qual tricota. “Não sei por onde vim. Quando me dei conta, já estava aqui.” “Hmmm.”- resmunga a velha, como se estivesse diante de um problema de difícil resolução. “Desculpe. Eu não me apresentei antes. Meu nome é Carolina. Eu cheguei até aqui, não sei como e agora gostaria de sair. Estou preocupada com os meus pais.” “Carolina?”- a velha então ri. “Sim, Carolina. Por que a senhora riu?” “Porque você disse que seu nome é Carolina.” “Sim. A senhora conhece alguém com esse nome?” “Seu nome não é Carolina.” “É sim!”- responde a menina sem entender direito onde a velha pretende chegar com a conversa. “Entendi. Eles disseram a você que seu nome é Carolina.” “Todo mundo me chama de Carolina.” “Mas o seu nome verdadeiro é Nádia.” “Como?” “Nádia.” “Não. Nunca.” “Esse casal, que você chama de pais, eles não são seus pais de verdade. Eu conheci sua família, muito tempo atrás…”- foi aqui que...

As histórias: o poder daquilo que nos habita

Acordo. Antes de abrir os olhos, meu primeiro contato com o mundo é: uma imagem. Pode ser um resquício do sonho recém-terminado, pode ser o início dos fragmentos do dia. Antes ainda de deixar a luz entrar, as imagens já existem. Depois, despertos, seguimos vendo a vida filtrados por essa realidade interior. Nas pessoas que conheço e conhecerei, nos conflitos do dia a dia, nas emoções vivenciadas, tudo isso possui correspondentes internos. São mundos em plena conexão e em mútua influência, um retroalimentando o outro. Não, não é só imaginação. As paisagens e personagens que carregamos são constantemente projetadas no que aprendemos a chamar de realidade. E por mais que não acreditemos nisso, por mais que nem possamos ouvir nossos sonhos ou devaneios, que nunca se sentiu capturado, abduzido, raptado por uma história, seja ela posta em livro, em filme, em peça, ou até narrada em páginas de jornais? Quem nunca foi arrebatado por uma imagem, uma cena, ou até uma música (que é, também, uma forma de narrativa?) As histórias são parte de nós. São os rios que fluem no nosso sangue, pedindo essa livre passagem de paisagens, personagens, argumentos. E cada vez que nosso sistema de crenças “proíbe” um contato, isolando-o em uma ilha represada, o que acontece? Sonhos repetidos, conteúdos que não se resolvem, histórias da vida que revivemos e ressentimos, mesmo que aparentemente tenham novos cenários e protagonistas. Como libertar, novamente, esse rio que flui do passado das memórias ao que imaginamos do futuro? Como nos jogar nesse rio sem o terror de sermos dissolvidos em tantas vozes, figuras, paisagens lindas ou aterrorizantes? O que,...

Imagem e espaço de representação

Distinções entre sensação, percepção e imagem Provisoriamente, entendemos a sensação como o registro que se obtém ao detectar um estímulo proveniente do meio externo ou interno e que faz variar o tom de trabalho do sentido afetado. Mas, o estudo da sensação deve ir mais longe quando comprovamos que há sensações que acompanham os atos do pensar, do recordar, do perceber, etc. Em todos os casos, se produz uma variação do tom de trabalho de algum sentido, ou de um conjunto de sentidos (como ocorre na sinestesia), mas é claro que não se “sente” do pensar na mesma forma e modo que se “sente” de um objeto externo. E, então, a sensação aparece como uma estruturação que efetua a consciência em seu afazer sintético, mas que é analisada arbitrariamente para descrever sua fonte originária, para descrever o sentido do qual parte seu impulso. De nossa parte, entenderemos a percepção como uma estruturação de sensações efetuadas pela consciência referindo-se a um sentido ou a vários sentidos. E no que tange à imagem, a entendemos como uma representação estruturada e formalizada das sensações ou percepções que provêm ou provieram do meio externo ou interno. A imagem, pois, não é “cópia”, mas síntese, intenção e, portanto, também não  é mera passividade da consciência.   O registro interno de acontecer a imagem em algum “lugar” Este teclado que tenho ante meus olhos, no acionar de cada tecla vai imprimindo um caráter gráfico que visualizo no monitor ligado a ele. Associo o movimento de meus dedos a cada letra e automaticamente as frases e sentenças decorrem, seguindo meu pensamento. Fecho os olhos e deixo...

Partilha

Nesse trabalho, o maior privilégio é ir construindo essa relação de parceria com pessoas que no início me eram completamente estranhas. Eu ainda sou ator, fazendo esse trabalho. Minha mente é a do ator, olhando para o conflito, tentando entender como o drama se forma. Partilho com essas pessoas nossas histórias, nossas dores, nossos movimentos e crises. E tenho satisfação em tentar compreender como é que tudo isso se define e se expressa no corpo. Pouco a pouco fui me instrumentalizando para encontrar essa abordagem que usa os jogos teatrais como instrumentos de investigação dessas tensões permanentes que nos definem em forma de dores e histórias e que temos a ousadia de chamar de “eu”. É como se o trabalho do ator fosse o reverso do trabalho de terapeuta e no meio desses dois caminhos se encontra o personagem que escolhemos defender, com toda dificuldade de mantê-lo consistente num meio tão variável e complexo quanto a vida nesse mundo. Então eu fui entendendo que a gênese do personagem a que eu chamo de “eu” é algo efetuado através de um procedimento muito similar ao que usamos quando construímos o personagem no espetáculo a quem chamamos “o outro”. Gestos, movimentos, escolhas de padrões, motivações ocultas, sub-textos. E assim, somos aquilo que criamos para nos relacionar com essa platéia de outros. Mas atrás desse homem, que se transforma no personagem para agradar a outros, existe essa coisa que age. Esse, que age no mistério que somos é o ator. E ele quer mudar. Ele precisa mudar. Precisa de novos desafios, precisa desenvolver novos caminhos. O ator precisa sempre ser outro. Ele é o que segue errando,...

Estado de Jogo

Eu tenho usado a ferramenta dos jogos teatrais como catalizador de descobertas pessoais. O jogo e o conflito. Normalmente eu elejo um tema a ser trabalhado e escolho alguns jogos que nos permitam explorar nossas tensões, resistências, dificuldades de mobilidade. Então o jogo em si e o conflito do ator-sujeito com o jogo e seus limites.