As histórias: o poder daquilo que nos habita

Acordo. Antes de abrir os olhos, meu primeiro contato com o mundo é: uma imagem. Pode ser um resquício do sonho recém-terminado, pode ser o início dos fragmentos do dia. Antes ainda de deixar a luz entrar, as imagens já existem. Depois, despertos, seguimos vendo a vida filtrados por essa realidade interior. Nas pessoas que conheço e conhecerei, nos conflitos do dia a dia, nas emoções vivenciadas, tudo isso possui correspondentes internos. São mundos em plena conexão e em mútua influência, um retroalimentando o outro. Não, não é só imaginação. As paisagens e personagens que carregamos são constantemente projetadas no que aprendemos a chamar de realidade. E por mais que não acreditemos nisso, por mais que nem possamos ouvir nossos sonhos ou devaneios, que nunca se sentiu capturado, abduzido, raptado por uma história, seja ela posta em livro, em filme, em peça, ou até narrada em páginas de jornais? Quem nunca foi arrebatado por uma imagem, uma cena, ou até uma música (que é, também, uma forma de narrativa?) As histórias são parte de nós. São os rios que fluem no nosso sangue, pedindo essa livre passagem de paisagens, personagens, argumentos. E cada vez que nosso sistema de crenças “proíbe” um contato, isolando-o em uma ilha represada, o que acontece? Sonhos repetidos, conteúdos que não se resolvem, histórias da vida que revivemos e ressentimos, mesmo que aparentemente tenham novos cenários e protagonistas. Como libertar, novamente, esse rio que flui do passado das memórias ao que imaginamos do futuro? Como nos jogar nesse rio sem o terror de sermos dissolvidos em tantas vozes, figuras, paisagens lindas ou aterrorizantes? O que,...

Imagem e espaço de representação

Distinções entre sensação, percepção e imagem Provisoriamente, entendemos a sensação como o registro que se obtém ao detectar um estímulo proveniente do meio externo ou interno e que faz variar o tom de trabalho do sentido afetado. Mas, o estudo da sensação deve ir mais longe quando comprovamos que há sensações que acompanham os atos do pensar, do recordar, do perceber, etc. Em todos os casos, se produz uma variação do tom de trabalho de algum sentido, ou de um conjunto de sentidos (como ocorre na sinestesia), mas é claro que não se “sente” do pensar na mesma forma e modo que se “sente” de um objeto externo. E, então, a sensação aparece como uma estruturação que efetua a consciência em seu afazer sintético, mas que é analisada arbitrariamente para descrever sua fonte originária, para descrever o sentido do qual parte seu impulso. De nossa parte, entenderemos a percepção como uma estruturação de sensações efetuadas pela consciência referindo-se a um sentido ou a vários sentidos. E no que tange à imagem, a entendemos como uma representação estruturada e formalizada das sensações ou percepções que provêm ou provieram do meio externo ou interno. A imagem, pois, não é “cópia”, mas síntese, intenção e, portanto, também não  é mera passividade da consciência.   O registro interno de acontecer a imagem em algum “lugar” Este teclado que tenho ante meus olhos, no acionar de cada tecla vai imprimindo um caráter gráfico que visualizo no monitor ligado a ele. Associo o movimento de meus dedos a cada letra e automaticamente as frases e sentenças decorrem, seguindo meu pensamento. Fecho os olhos e deixo...