Partilha

Nesse trabalho, o maior privilégio é ir construindo essa relação de parceria com pessoas que no início me eram completamente estranhas. Eu ainda sou ator, fazendo esse trabalho. Minha mente é a do ator, olhando para o conflito, tentando entender como o drama se forma. Partilho com essas pessoas nossas histórias, nossas dores, nossos movimentos e crises. E tenho satisfação em tentar compreender como é que tudo isso se define e se expressa no corpo. Pouco a pouco fui me instrumentalizando para encontrar essa abordagem que usa os jogos teatrais como instrumentos de investigação dessas tensões permanentes que nos definem em forma de dores e histórias e que temos a ousadia de chamar de “eu”. É como se o trabalho do ator fosse o reverso do trabalho de terapeuta e no meio desses dois caminhos se encontra o personagem que escolhemos defender, com toda dificuldade de mantê-lo consistente num meio tão variável e complexo quanto a vida nesse mundo. Então eu fui entendendo que a gênese do personagem a que eu chamo de “eu” é algo efetuado através de um procedimento muito similar ao que usamos quando construímos o personagem no espetáculo a quem chamamos “o outro”. Gestos, movimentos, escolhas de padrões, motivações ocultas, sub-textos. E assim, somos aquilo que criamos para nos relacionar com essa platéia de outros. Mas atrás desse homem, que se transforma no personagem para agradar a outros, existe essa coisa que age. Esse, que age no mistério que somos é o ator. E ele quer mudar. Ele precisa mudar. Precisa de novos desafios, precisa desenvolver novos caminhos. O ator precisa sempre ser outro. Ele é o que segue errando,...

Estado de Jogo

Eu tenho usado a ferramenta dos jogos teatrais como catalizador de descobertas pessoais. O jogo e o conflito. Normalmente eu elejo um tema a ser trabalhado e escolho alguns jogos que nos permitam explorar nossas tensões, resistências, dificuldades de mobilidade. Então o jogo em si e o conflito do ator-sujeito com o jogo e seus limites.

O personagem como uma medicina para o ator

Coisa difícil de definir é o ator e sua arte. Existem palavras que expressam bem a relação do ator com o texto. Interpretar é uma delas. Existem outras que pontuam a relação do ator com a idéia por trás da sua ação. Representar é uma palavra assim. Outras ainda colocam o ator como o sujeito da ação e a própria palavra “ator” indica que acima de tudo o sujeito age e a ação o define. Atuar, vem de ator. Ou ator vem de atuar. É desse mundo ideal que o ator interpreta com o seu mergulho e tenta representar usando o seu corpo, a sua fala, a sua ação, sua atuação, nasce essa arte do ator. Um jeito do ator fazer a sua arte é tornar o texto uma pessoa. Outro é tornar a idéia em corpo ou a emoção em ação. Por onde vamos se quisermos fazer isso? Qual o jeito? Januzelli diz assim: “O ator é aquele que busca abandonar-se de si para tornar-se outro.” E nos deixa com essa frase e mais as perguntas que ela suscita: Como é esse abandono? É possível? É uma espécie de morte? O ator precisa ser permeável ao outro? Que outro? Uma outra possibilidade dele mesmo ou realmente alguém outro? O que define “esse” e o que define “aquele”? O ator é esse que caminha para ser aquele? Que caminho leva o homem ao ator? Com tantas perguntas, eu mesmo fico pensando que a arte do ator é um trajeto dele até ele mesmo. No caminho ele vai encontrando outros e ao se confrontar com eles, vai descobrindo a que veio. O...