A velha

A velha

Então eu vejo essa menininha entrando nesse jardim abandonado. O mato cresce solto, sem nenhum cuidado, por toda a parte. Não entendi bem de onde a menina veio. Parece que chegou aqui por acaso. Talvez esteja perdida. Ao mesmo tempo que eu, a menina vê a velha sentada no banco. A velha tricota infindavelmente uma manta que se arrasta pelo chão. Não consigo explicar essa sensação de perigo que sinto ao ver a menina se aproximando da velha para pedir, talvez, informações sobre como sair daqui. “Bom dia, eu estou procurando a saída desse lugar.” “Talvez seja uma boa idéia você voltar por onde veio.” – responde a velha, usando a lógica com a qual tricota. “Não sei por onde vim. Quando me dei conta, já estava aqui.” “Hmmm.”- resmunga a velha, como se estivesse diante de um problema de difícil resolução. “Desculpe. Eu não me apresentei antes. Meu nome é Carolina. Eu cheguei até aqui, não sei como e agora gostaria de sair. Estou preocupada com os meus pais.” “Carolina?”- a velha então ri. “Sim, Carolina. Por que a senhora riu?” “Porque você disse que seu nome é Carolina.” “Sim. A senhora conhece alguém com esse nome?” “Seu nome não é Carolina.” “É sim!”- responde a menina sem entender direito onde a velha pretende chegar com a conversa. “Entendi. Eles disseram a você que seu nome é Carolina.” “Todo mundo me chama de Carolina.” “Mas o seu nome verdadeiro é Nádia.” “Como?” “Nádia.” “Não. Nunca.” “Esse casal, que você chama de pais, eles não são seus pais de verdade. Eu conheci sua família, muito tempo atrás…”- foi aqui que...

O Homem de Pedra

Um caminho de pedras à beira do rio. O som dos pássaros na copa da árvore. A água gelada corre a montanha. Os pés da menina descalços na terra. Ela corre, ela ri, ela grita: “Voltaaaaaaaa!” Num grito alado, fôlego de criança. _ Voltaaaaaaaaaa! Na casa, as cortinas balançam ao vento. O canto da mãe embala o vazio das horas. Cozinha, de pés descalços, canta… A menina vai longe sem saber pra onde voar – “Volta! Voltaaaaaaaaa!” – segue o balão de gás vermelho no céu, que vai sangrando, valsando com o vento. Desenhando no espaço a saudade do antes. A tarde se põe e o negrume da noite invade o casebre detrás do morro. A mãe põe a mesa e a menina vai longe. A mãe sente o coração beliscar. A menina não pode parar. Uma lágrima escorre no rosto pálido da mãe. O espanto surge no canto da boca da menina. A mãe quer gritar “Volta!” A menina calada observa a imagem do homem na pedra. A comida no prato esfria na mesa. A imagem da mãe pela janela. Nada vê, o corpo estremece, não sai do lugar. O balão se perde no escuro da noite. A menina abraça a estátua de pedra. Sussurra: Volta! Num sopro infantil. E, então, ela sorri e corre de volta pelo caminho do rio, com os pés descalços na terra, seguindo a trilha de pedras. A mãe a aperta nos braços, um afago feroz – “Onde estava, menina?” “Foi meu coração!” – respondeu a menina – “Ele bateu muito longe e eu o segui.” “Eita, menina, a comida esfriou!”   Por Cristiane...

pedaços da colagem

da casca de noz se expande o universo. quase. recebo seu sutil na semente do meu êxtase. carinho em ênfase. sem pressa, se move. lento, caminha. impressão leve. sem pressão, fica. contorna sul, norte confia, escuta, recebe. oeste, leste aprofunda. morde. cachoeira santa brota. de dentro. tu mergulhas. sou as águas, em silêncio. Samsara! Final é desperdício. por Renata Oliveira...

A Rainha das Pérolas

Tudo começou com apenas uma pérola que ela havia encontrado na beira do mar. Era de uma beleza rara, pura e muito brilhante. Naquela época, ela era apenas uma menina que brincava nos altos das montanhas, conversando com as estrelas. Então surpreendeu-se ao ver o presente que o mar lhe trouxera. Brincou com a pérola, encantada com seu brilho. Guardou-a numa pequena caixinha que havia ganhado da avó, e sentia-se agraciada pelo lindo presente trazido pelas ondas. Tanto que, no ano seguinte, ficou feliz em saber que voltariam à mesma praia. A época era a mesma. O sol brilhava muito parecido. Mas o mar havia mudado. As ondas traziam apenas conchas vazias. Lindas conchas, algumas pintadinhas de madrepérolas. Mas nada de grandes surpresas. A menina esperou muitos dias. Durante toda a temporada na praia, esperava que as ondas lhe trouxessem, novamente, um tesouro. Mas nada lhe aparecia. Até que, no último dia de suas férias ali, ela fez um pedido ao mar: se ele lhe enviasse outra pérola, ela lhe devotaria sua vida. Terminado o pedido, a menina chorou. E qual foi sua surpresa ao ver que, ao tocar aquela lágrima, sentiu que era uma pérola o que seus dedos acariciavam. Ela ficou radiante com aquele novo presente, e uma nova lágrima desceu, e era também uma pérola perfeita. Porém, ao tentar colher as esferas do seu rosto, a menina percebeu que elas estavam coladas à sua pele. Desesperada, entrou no mar, para ver se a água poderia soltá-las, e ao mergulhar o rosto nas ondas, ela foi atraída, como se uma grande força a puxasse, para as profundezas...

para Thaís

Te adubo para que germine Te abraço para te nutrir Te envolvo sem te tocar Sua pessoa brota longe, E ainda assim me sinto feliz em pensar Que te brotam raízes que flutuam Como orquídeas que não sugam Nem têm medo de pousar. Entrelaçadas somos Somadas lincamos mundos Fora do espaço-tempo Dentro de cada uma. por Claudia Jacoponi, workshop...

ali

De cabeça vaziaMas de cuca legalEnquanto ela sorriaSe entregava ao ritualCercada de pedrasDispostas em espiralPude ouvir suas precesSeu pedido finalE num belo desenhoFiz um registro mentalUm sincero agradecimentoResumido num sinal    por Fábio Mesquida, workshop...